Diretor: Edélcio Vigna.
Elenco: Ana Carolina, Fernando Pessoa, Fernando Sousa e Mary Abrão.

Grupo de Teatro Scrachados

O Grupo Teatro Scrachados (GPS) trabalha o método de atuar focado na pessoa. Herda o despojamento de Grotowski, o distanciamento crítico de Brecht, a violência simbólica de Artaud e não descarta o naturalismo de Stanislavski. Teatro liquidificador. Bem vindo ao nosso mundo.















sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Labirinto, de Jorge Luis Borges


Não haverá nunca uma porta. Estás dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não tem nem anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor de teu caminho
Que teimosamente se bifurca em outro,
Que obstinadamente se bifurca em outro,
Tenha fim. É de ferro teu destino
Como teu juiz. Não aguardes a investida
Do touro que é um homem e cuja estranha
Forma plural dá horror à fantasia
De interminável pedra entretecida.
Não existe. Nada esperes. Nem sequer
No negro crepúsculo a fera.

Este é o Labirinto de Creta (Jorge Luis Borges)


Este é o labirinto de Creta.


Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro.


Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações.


Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos.


Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.



(Atlas - tradução de Miguel Angel Paladino)


quarta-feira, 19 de maio de 2010

Entrevista com Wal Mayans


Que tendência do teatro contemporâneo te parece mais interessante?

Na realidade é difícil definir as tendências do teatro contemporâneo, mais difícil ainda é definir os seus componentes que se alteram, se rebelam e voltam a ser contemporâneos. Existem sim muitos teatros novos como contemporâneos, mas respondem apenas ao seu tempo, tendências e geração cultural. Não tem raízes, são apenas trabalhos espetaculares sugeridos pela arte da moda, mas na realidade não deixam nada, não transcendem, passam rápido de moda. São poucos os grupos de teatros preocupados em desenvolver um trabalho próprio com um método, uma técnica, um estilo próprio de trabalho de pedagogia para o ator, de montagem, etc.

Mas, se também estão aqueles que sustentaram sua história e a história através dos tempos, aqueles que em 15, 20, 30 e 40 anos juntos, que contra vento e mares tem defendido sua arte, tem lutado, e também em seu momento se tem isolado, permanecido sempre junto, até que termine a tormenta e continuaram trabalhando para crer neles mesmos projetando sua arte sobre as bases de suas próprias experiências, se tem integrado as mudanças sociais, político-culturais, e, todavia, seguem vivos e seus trabalhos seguem sendo contemporâneos.

Há aqueles rebeldes, heréticos, reformadores do teatro, estes pais fundadores da modernidade (Stanislavski, Meyerhold, Craig, Copeau, Artaud, Brecht y Grotowski) são criadores da transição. Seus espetáculos sacudiram os modos de ver e fazer teatro e tem obrigado a reflexão sobre o presente e passado com uma consciência totalmente distinta.

“A Transição” é uma cultura. Pessoalmente respeito os diretores e mestres teatrais contemporâneos como Eugenio Barba, Peter Brook, Bob Wilson, Ariana Mnouchkine, e outros grandes referenciais. Normalmente não me detenho sobre um teatro de moda, só sobre aquele que tem uma projeção e profissão de um mínimo de 10 a 30 anos, aqueles que sustentaram a história, tem resistido e tem legado novos significados.

(leia a entrevista na íntegra no blog do Tierra sin Mal, ao lado)

sábado, 15 de maio de 2010

Primeira análise dos personagens do Labirinto


Na peça “Lobos não entram em Labirinto” há dois personagens protagonistas e um elenco de apoio. Os atores protagonistas, o rei e o bobo-da-corte, mostram-se satisfeitos. Entre os atores do elenco de apoio ocorre uma insatisfação ou uma indiferença. A satisfação tende a explodir. A indiferença ou a alienação acomoda. O que move o drama é a explosão.

No elenco de apoio existe uma gama de personagens com funções diferenciadas. A rainha e a dama-de-companhia carregam uma densidade maior que os outros personagens deste grupo. A insatisfação aparece nas atrizes destas personagens. São elas as rebeldes do elenco. Insurgem contra o texto e contra o autor. Questionam o diretor. Provocam o produtor.

Demonstram um claro entendimento do funcionamento da empresa teatral. “Não está satisfeita, até logo, encontra-se outra atriz”. A rebeldia destas personagens não é revolucionária, pois não é gerada por um questionamento da estrutura da peça, mas por uma necessidade individual de se projetar enquanto atrizes. Mesmo assim, cumprem o papel de denunciar o efeito do capital e sua necessidade de reprodução rápida na arte cênica. Que por ser arte necessita de um tempo diferente do que o da bolsa de valores ou do mercado de capitais, para sua realização.

O personagem do produtor, que detém os direitos autorais da peça, não está preocupado com o destino dos personagens ou a felicidade do elenco, mas com o retorno do capital investido. Representa o conservadorismo. Sua função é manter a situação como está, pois fora deste contexto tudo é ameaçador ao seu investimento.

Há outros personagens de apoio, como o guarda, o mensageiro e “ator”, que são personagens de ligação. Cumprem uma função secundária e não interferem diretamente na trama da peça. São portadores de nuvens carregadas ou não. Sinalizam desdobramentos cênicos que podem ocorrer na peça ou fora dela.

Existem, também, os personagens dos quatro construtores do labirinto, mas vamos analisá-los, assim como os protagonistas, em outro momento.

Escrevendo, discutindo e encenando, vamos compreendendo a peça que escrevemos, discutimos e ensaiamos.

sábado, 8 de maio de 2010

Filosofia do martelo


Hoje o grupo voltou a ensaiar. Tivemos dois sábados horríveis. Nada caminhou. Tive impressão que até mesmo que regredimos.

Já discutimos a narrativa da peça. É a história de um reino decadente que se aprofunda em uma crise mortal, desde o momento em que o rei resolve construir um labirinto. As personagens são aparentemente duplicadas. O rei pode ser o bobo da corte que pode ser o rei. A rainha pode ser a dama de companhia que pode ser a rainha. Uma parte do elenco não está satisfeito com seus personagens, que são mal construídos e os figurinos são horríveis. Por isso, invadem o palco para reclamar com o autor. O drama do reino mistura-se com o dos atores.

O cenário é um trono capenga e uma grande moldura de espelho, que roda pelo palco. A única musica, do grupo alemão Corvus Corax, é no início da peça e o resto são sons produzidos pelos atores por que o produtor não tem dinheiro para contratar um grupo musical ou pagar os direitos autorais cobrados pela ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais).

Bem, hoje começamos a marcar algumas cenas. Isso depois de uma longa conversa sobre o comportamento dos personagens. Quem sofre mais é ator que interpreta o bobo da corte. Marcação, jogo de cena e de corpo, puxados. Não se chega ao malabarismo, mas exige-se uma boa cintura.

O grupo é formado por jovens que nunca freqüentaram um curso de arte dramática e estão absorvidos pelos cursinhos para concursos públicos. Distribui entre eles os livros de Stanislavski, Brecht e Grotowski. Lêem quando dá. Alguns faltam quando se aproxima a data do concurso e outros são como bumerangues, vão e voltam. O grupo é bem amador, mas tem todas as pretensões do mundo.

Procuramos aumentar o grupo, mas nenhum ator/atriz apareceu. Estamos tocando a peça pelo método coringa: uns fazem vários personagens.

Bem, como só vamos estrear em outubro...

DEIXA EU ANDAR DESCALÇA












By Dalva Maria Ferreira

Deixa eu andar descalça nas calçadas,

nas ruelas

e nos becos

que fizeram da infância um lugar mágico.

E mergulhar pelada na água clara

do riacho

que deságua

além das pedras recobertas de taboa.


Deixa eu ter na boca o gosto doce

das goiabas

e das mangas

arrancadas dos quintais circunvizinhos.


E dormir à noite, ouvindo os bichos,
sapos,
grilos,

sonhar
talvez, e não pensar em acordar.

sábado, 24 de abril de 2010

Lobos não entram em Labirintos


Os Scrachados resolveram montar uma peça "Lobos não entram em Labirintos", do diretor do grupo, Edelcio Vigna.

A peça conta história de um reino decadente onde se constrói um labirinto.
A interação entre os personagens - rei, rainha, dama de companhia, bobo da corte e outros - é confusa e beira o irreal.
Os atores tentam alterar o destino dos personagens e algumas histórias pessoais emergem no absurdo da peça.

Os ensaios estão horríveis e os atores faltam muito, mesmo sendo os ensaios somente nos sábados.

O diretor sempre chega na hora, mas a trupe somente uma hora depois. Alguns ligam dando desculpas esfarrapadas e faltam.

Achamos que eles não estão gostando da peça.

Bem, vamos ver como a coisa se processa... e contamos depois.